poesias

 

MEU ANJO

Meu anjo tem o encanto, a maravilha
Da espontânea canção dos passarinhos;
Tem os seios tão alvos, tão macios
Como o pêlo sedoso dos arminhos.

Triste de noite na janela a vejo
E de seus lábios o gemido escuto
É leve a criatura vaporosa
Como a frouxa fumaça de um charuto.

Parece até que sobre a fronte angélica
Um anjo lhe depôs coroa e nimbo...
Formosa a vejo assim entre meus sonhos
Mais bela no vapor do meu cachimbo.

Como o vinho espanhol, um beijo dela
Entorna ao sangue a luz do paraíso.
Dá morte num desdém, num beijo vida,
E celestes desmaios num sorriso!

Mas quis a minha sina que seu peito
Não batesse por mim nem um minuto,
E que ela fosse leviana e bela
Como a leve fumaça de um charuto!

(Autoria: Álvares de Azevedo

 

 

AMAR

Amar, para poder viver,
Para se dissipar o sem sentido de se viver  por viver.
Amar por quê?
Para não adoecer, para que, ao final; possa-se dizer:
Valeu a pena, por que amar é crer.
Por que amar?
 Para não se entristecer,
Para não se perder a alegria de viver.
Amar por quê?
Para poder perdoar e esquecer,
Para voltar a sorrir, para lutar e vencer.
Por que?
Para se conhecer a Deus, nosso primeiro amor, Nosso maior amor, nosso Grande amor,
Acima de todo amor, origem de todo amor,
Fim de todo amor, eternidade de amor.
Amar por quê?
Para não fenecer, para não murchar,
Para não regredir, para não desfalecer.
Amar para se lembrar e também para esquecer.
Por que amar?
Para chorar e sorrir, para plantar e colher.
Amar por quê ?
Para caminhar, para se merecer, para se enternecer.
Amar para olhar e conhecer.
Por que amar?
Amar para não morrer.
Porque os que não amam já morreram, Permaneceram mortos.
Perambularam sem saber como nem por quê.
Amar por quê?
Para confiar, para não se entregar, mas se integrar.
Amar porque Deus é amor e isso basta.

 


(Desconheço a Autoria)

 

O QUE ME DÓI

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...
São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.
São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.


(Autoria: Fernando Pessoa)

DO  ÚLTIMO  DIA

 

Alberto de Oliveira

 

 O homem, no último dia, abatido em seu horto,

Sente o extremo pavor que a morte lhe revela;

Seu coração é um mar que se apruma e encapela,

No pungente estertor do peito quase morto.

 

Tudo o que era vaidade, agora é desconforto,

Toda a nau da ilusão se destroça e esfacela

Sob as ondas fatais da indômita procela,

Do pobre coração, que é náufrago sem porto.

 

Somente o que venceu nesse mundo mesquinho,

Conservando Jesus por verdade e caminho,

Rompe a treva do abismo enganoso e perverso !

 

Onde vais, homem vão? Cala em ti todo alarde,

Foge dessa tormenta antes que seja tarde:

Só Jesus tem nas mãos o farol do Universo.

 

Do livro Parnaso de Além-Túmulo. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

 

 

AJUDA  E  PASSA

 

Alberto de Oliveira

 

Estende a mão fraterna ao que ri e ao que chora:

O palácio e a choupana, o ninho e a sepultura,

Tudo o que vibra espera a luz que resplendora,

Na eterna lei de amor que consagra a criatura.

 

Planta a bênção da paz, como raios de aurora,

Nas trevas do ladrão, na dor da alma perjura;

Irradia o perdão e atende, mundo afora,

Onde clame a revolta e onde exista a amargura.

 

Agora, hoje e amanhã, compreende, ajuda e passa;

Esclarece a alegria e consola a desgraça,

Guarda o anseio do bem que é lume peregrino...

 

Não troques mal por mal, foge à sombra e à vingança,

Não te aflija a miséria, arrima-te à esperança.

Seja a bênção de amor a luz do teu destino.

 

Do livro Parnaso de Além-Túmulo. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.